As Geopolíticas Clássicas

Segundo Becker (2009, p. 273), podemos definir o paradigma Geopolítico a partir do realismo, no campo das relações internacionais. Esse realismo pressupõe o Estado como unidade política básica do sistema internacional, cujo atributo principal é o poder, em suas dimensões predominantes de natureza militar ideológica e econômica; poder entendido como a capacidade de uma unidade política alterar o comportamento de outra no sentido de fazê-la comportar-se de acordo com seu interesse; e as unidades se relacionarem no sentido de otimizar os interesses respectivos visando o equilíbrio de poder.

Ainda segundo a autora, a herança ideológica da Geopolítica reside no Estado-nação como única unidade política da ordem mundial e pelo determinismo geográfico, com a atribuição de poder ao espaço. Vesentini (2000, p. 16), afirma que a preocupação básica da geopolítica clássica nunca foi a de um conhecimento (geográfico e/ou científico) sobre um aspecto da realidade (a dimensão espacial da política) e sim a de estabelecer bases para que o “seu” Estado se fortalecesse no cenário internacional. As geopolíticas clássicas sempre foram, assim, relacionadas às explicações sobre a importância estratégica de determinados territórios para determinados Estados.

Esse discurso se origina na criação da disciplina pelo sueco Rudolf Kjellen (1864-1922), que pela primeira vez empregou o termo “Geopolítica” num ensaio intitulado “As Grandes Potências”, em 1905, e na teoria do Estado de Friedrich Ratzel (1844-1904). Para Kjellen, influenciado por Ratzel, o Estado se assemelha a uma forma de vida que para crescer necessita expandir o seu espaço – o chamado espaço vital – levando ao auge o determinismo geográfico e legitimando a prática estratégica do poder do Estado.

Assim, as características fundamentais de um Estado seriam a posição e o tamanho do território, além de sua forma. A partir da primeira metade do século XX, a expansão dos transportes e dos meios de comunicação (BECKER, 2009, p. 277), altera a visão europeicêntrica, dando origem à hipóteses geoestratégicas da distribuição do poder mundial elaboradas por teóricos das potências imperialistas.

A teoria mais difundida na Geopolítica foi a do poder terrestre, elaborada por Sir Halford Mackinder (1861-1947), geógrafo inglês. Mackinder hierarquizou os espaços como se eles tivessem um valor intrínseco e permanente para o poderio mundial. Chamou de ilha mundial (world island) a Europa que seria constituída por uma terra-coração (heartland), que seria considerada a região geoestratégica do planeta, o “pivô” geográfico da história onde teriam acontecido as mais importantes guerras.

Mackinder chegou a essa conclusão a partir da presença de uma porção importante da maior planície do mundo na região, o que favoreceria a mobilidade de povos e guerreiros; a presença de alguns dos maiores rios do mundo; e a sua natureza mais ou menos fechada em relação às incursões marinhas (VESENTINI, 2000, p. 19). Segundo Becker (2009, p. 279) Mackinder não considerou o desenvolvimento tecnológico que afetaria a noção de monopólio do poder e tampouco levou em conta as desvantagens da continentalidade. Mackinder viveu a época do Estado territorial militarizado que tinha sua base no número de soldados, navios e armamentos, e não na tecnologia de precisão, como atualmente. A diminuição gradativa da importância dos recursos naturais (minérios, solo, espaço físico) ao utilizar técnicas de biotecnologia para produzir mais alimentos em menos espaço, que teve seu boom na década de 1960, também não poderia ser prevista por Mackinder.

O nome mais famoso da Geopolítica é Karl Haushofer (1869-1946), adaptador para a Alemanha das idéias de Mackinder. Haushofer idealizou a formação de Pan-Regiões como forma de alcançar a autarquia a partir de recursos advindos de diferentes climas, esboçando uma “ordem mundial ideal”. A Revista de Geopolítica, organizada por Haushofer, abordava temas já utilizados por Ratzel e Kjellen como o espaço vital, adaptando-os para o contexto geopolítico alemão em meio ao nacional-socialismo, apesar de Haushofer ter negado a ligação de sua Geopolitik com o Estado nazista.

Após a Segunda Guerra Mundial, reconhece-se que a tecnologia permite atacar à distância e que o controle de apenas uma via de movimento, seja o poder terrestre, naval, ou aéreo, se torna inútil. O desenvolvimento histórico do capitalismo passa a se reproduzir não mais apenas nas relações econômicas, mas também nas relações sociais de produção, no espaço inteiro (BECKER, 2009, p.285). O valor estratégico não se resume mais apenas aos recursos e posições geográficas, mas passa a estar ligado à ciência e à tecnologia.

Segundo Becker (2009, p. 282), ao lado da distribuição de terras e mares e linhas de interconexão, passam a pesar variáveis como população, ideologia e comércio, resultando em duas grandes regiões geoestratégicas, base da Guerra Fria: o mundo marítimo dependente do comércio, liderado pelos EUA, e o mundo continental eurasiano, liderado pela URSS. Limites rígidos – divisão da Alemanha e Coréia, e uma zona de fragmentação correspondente ao Oriente Médio e Sudeste da Ásia passaram a ser importantes para manter o equilíbrio geopolítico. Esse processo parece estar intimamente ligado à crise da Geopolítica clássica.

A crise da geopolítica clássica se deu, também, devido à identificação que os vencedores da Segunda Guerra Mundial produziram entre a disciplina e os regimes fascistas. A Geopolítica apenas seria retomada, nas décadas de 1970 e 1980, com o aumento dos gastos com armamentos por parte das duas potências (EUA e URSS) e a iminência de um confronto; porém, essa retomada se deu sem os métodos e pressupostos dos geopolíticos considerados clássicos. Segundo Vesentini (2000, p.28) ocorre até mesmo a mudança no conceito do que é uma grande potência mundial, sendo atualmente, para ele, um Estado (ou uma confederação no caso da União Européia) que possui tecnologia moderna, com uma força de trabalho qualificada – o que pressupõe um elevado nível de escolaridade, e não o Estado que possui apenas um grande território, numerosa população, boa estratégia militar e armamentos pesados.

Referências Bibliográficas:

BECKER, Bertha. A Geopolítica na virada do milênio: lógica e desenvolvimentos sustentável. In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo César da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato. Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2009.

VESENTINI, José William. Novas Geopolíticas: as representações do século XXI. Rio de Janeiro: Editora Contexto,2000.

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